domingo, 25 de maio de 2008
Sinceramente
Sinceramente? Eu não me importaria se me dissessem que há um satélite filmando meu quintal. Não, não. Convivemos com mais serviços secretos que oficiais, concorda? Sou muito superior a isso. Podem vir mil agentes do FBI, a única coisa que eles encontrarão na minha propriedade são as orquídeas mais bonitas da região. Muito melhores aliás que as semi mortas dos vizinhos de frente. E ainda se gabavam: “Trato elas todos os dias. Até converso com as flores!”. Como se planta escutasse. Provavelmente se escutasse, acharia tão estúpido quanto eu achei.
Então você me pergunta: e se colocassem uma câmera na sua cozinha?
Bem, querido curioso, eu acharia uma delícia. Você também acharia. Nós dois poderíamos nos maravilhar com os pães italianos, queijos franceses e chocolates belgas. Eu com o paladar e você com a visão. Não daqueles em promoção no mercado! Daqueles importados. Especialmente para mim.
Agora, e quanto ao quarto? Ótimo questionamento. Já dizia minha boa avó, se quer conhecer uma pessoa esqueça a mente, vá ao armário. E no meu você vai encontrar os produtos mais atuais em quesito de máscaras faciais, perfumes. Roupas que mantém a coluna erguida. Lentes de contato.
Sinceramente? Se tivessem colocado câmeras comuns na minha casa, eu não teria me importado. Sou muito maior que isso. Mas não foi o que fizeram. O que fizeram foi instalar um aparelho pior. Desconhecido e desconcertante.
No meio da noite fui acordada por aquela besta mecânica. Desrespeitando minhas oito sagradas horas de sono e todas as onze de trabalho que viriam a seguir, ela me assustou com seu frenético processar de dados adquiridos. Então, me embebedou de horror com as imagens armazenadas e fez com que eu caísse com os braços em formato de cruz sobre a cama.
“Pois é”, disse a voz triste da máquina, enquanto eu ainda pensava em como faria para me levantar. “Então quer dizer que você envenenou as orquídeas dos próprios vizinhos”.
“E a questão não foi nem inveja... Você mal se importava com o próprio jardim. Tudo, e veja bem que patético, foi o ciúme da relação de uma pessoa com uma planta. Você não vale nem isso para uma amizade. Você é pior que uma planta. Uma planta. Que vida. Que vida, hem?”
“E sua comida? Você manda vir diretamente para casa. Ainda é o medo de freqüentar lugares públicos? Pudera. Você sabe melhor que ninguém que o medo não é se misturar com os outros, mas que os outros não queiram se misturar com você. Bonito, tão bonito.”
Achei e apertei o objeto na tentativa de quebrá-lo. No entanto, quanto mais o apertava, mais ele falava. Quanto mais o atingia, mais dor eu sentia.
Finalmente adormeci, exausta.
O som tic-e-tac de um objeto que nem sempre se parecera um relógio me enlaçou, mas nenhuma das duas mãos ousou, qualquer dia a seguir deste, sair de cima do pulsante e reprimido peito esquerdo.
Então você me pergunta: e se colocassem uma câmera na sua cozinha?
Bem, querido curioso, eu acharia uma delícia. Você também acharia. Nós dois poderíamos nos maravilhar com os pães italianos, queijos franceses e chocolates belgas. Eu com o paladar e você com a visão. Não daqueles em promoção no mercado! Daqueles importados. Especialmente para mim.
Agora, e quanto ao quarto? Ótimo questionamento. Já dizia minha boa avó, se quer conhecer uma pessoa esqueça a mente, vá ao armário. E no meu você vai encontrar os produtos mais atuais em quesito de máscaras faciais, perfumes. Roupas que mantém a coluna erguida. Lentes de contato.
Sinceramente? Se tivessem colocado câmeras comuns na minha casa, eu não teria me importado. Sou muito maior que isso. Mas não foi o que fizeram. O que fizeram foi instalar um aparelho pior. Desconhecido e desconcertante.
No meio da noite fui acordada por aquela besta mecânica. Desrespeitando minhas oito sagradas horas de sono e todas as onze de trabalho que viriam a seguir, ela me assustou com seu frenético processar de dados adquiridos. Então, me embebedou de horror com as imagens armazenadas e fez com que eu caísse com os braços em formato de cruz sobre a cama.
“Pois é”, disse a voz triste da máquina, enquanto eu ainda pensava em como faria para me levantar. “Então quer dizer que você envenenou as orquídeas dos próprios vizinhos”.
“E a questão não foi nem inveja... Você mal se importava com o próprio jardim. Tudo, e veja bem que patético, foi o ciúme da relação de uma pessoa com uma planta. Você não vale nem isso para uma amizade. Você é pior que uma planta. Uma planta. Que vida. Que vida, hem?”
“E sua comida? Você manda vir diretamente para casa. Ainda é o medo de freqüentar lugares públicos? Pudera. Você sabe melhor que ninguém que o medo não é se misturar com os outros, mas que os outros não queiram se misturar com você. Bonito, tão bonito.”
Achei e apertei o objeto na tentativa de quebrá-lo. No entanto, quanto mais o apertava, mais ele falava. Quanto mais o atingia, mais dor eu sentia.
Finalmente adormeci, exausta.
O som tic-e-tac de um objeto que nem sempre se parecera um relógio me enlaçou, mas nenhuma das duas mãos ousou, qualquer dia a seguir deste, sair de cima do pulsante e reprimido peito esquerdo.
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Um comentário:
Reconheci sem ver seu nome que era um texto seu. Talvez pelo jeito de escrever, talvez pelo meu pressentimento. Quem sabe, talvez, o counteúdo? Sim, o conteúdo. Está tudo escrito aí em cima, TODO o conteúdo.
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