sábado, 31 de maio de 2008

Diários de observação. Parte I.

Passando o tempo todo ocupado em descobrir o mundo. Sem saber nada sobre mim mesmo. Como um elemento volátil. Não importa se assumo a forma sólida, líquida, estou sempre a ponto de voltar ao gás. Esgueirando-me através de fechaduras e descobrindo o segredo de todos os baús. Sem corpo, no entanto. Do que vale o conhecimento sem olhos? Para que sirvo, então?...
Olhe os velhinhos... Decidindo o humor em dependência do tempo. Não estão errados. Sem sol, todas as ruas são escuras. Eles que sabem, no final. Um dia terei coragem tirar os óculos escuros. Será? Serei.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Por quê?

Me diga: por quê?
Não, de verdade. É apenas um ato sádico nos colocar no mundo? Para depois estender a mão, dar uma piscadela e dizer: "É isso aí, meu chapa. Acabou."?
Perdão pela blasfêmia, sindicados dos seres humanos à parte, mas religião deveria no mínimo reconfortar. Dar a mão depois de dar o tapa? Vai entender. Se o nariz saiu muito torto, Gepeto, foi você quem fez.
Chega desse eterno "expressar da subjetividade" através de metáforas. Vamos ser objetivos, sim? Não quero renascer coisíssima nenhuma. O botão da rosa que me desculpe, mas só desejo crescer com a mesma impressão na identidade.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Alameda de Arte


É estar sozinho na estrada, ou é ser iluminado por um poste. Na alameda, a única barreira é a que se transpõem entre o homem e a paixão. Na arte vivemos sobre a barreira. Cabe a nós escolher descer do outro lado.

Você leitor, de que lado está?

Sobre o Casaco

Sobre um casaco quente de inverno, no frio da madruga, a pasmar com sua música. A olhar para as estrelas, ao som do violão, junto com os amigos. Sentado no conforto da relva vira mais um gole do leite no copo.
- Dá pra atende o telefone?!
Sentado na cadeira, na frente do PC, ouvindo Led Zeppelin, conversando no Skype, tomando um Toddy, olhando seu wallpaper estrelado e de fone de ouvido.
- Será que não é possível viajar só por 5 minutos?!

Ciranda de Pedra

Como eles conseguem estragar tudo? A garota prendeu uma formiga entre o polegar e o indicador. Observou as antenas se debatendo, imaginou a pequena pinça venenosa abrindo e fechando para o nada, se defendendo do imenso vazio de nitrogênio, oxigênio e gases desprezíveis nunca antes notados. A televisão acaba com tudo, pensou, finalmente prensando o animal entre os dedos. Ela não dava a mínima.
Com um sopro livrou-se do levíssimo fardo e caiu de costas no sofá. Contemplou o livro que capítulo a capítulo era destruído na sequência da novela. Falas longas demais, pensamentos muito pequenos. Acharam um novo modo de queimar as fadas na Inquisição. Através de uma maçã envenada ou espartilho de Branca de Neve, eles sempre venciam depois do para sempre.
Segurou o controle remoto e impulsivamente apertou todos os botões. Ligou. Imediatamente emergiram as lágrimas que não manchavam maquiagem, as cabeças e cabelos endurecidos. Fechou os olhos e assim permaneceu encarando-os até o fim.
Eles não deram a mínima.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

É

Quem se engana a todo momento? O enganar não poderia ser o disfarçar de certa forma disfarçado. Assim como a mentira pode não ser mentira e sim ser uma omissão. A vida é ambígua, ou será ela relativa. Eu não. Você sabe? Quem sabe saber de tudo não é estar se omitindo, se enganando. É relativo. Também sou. Será?

domingo, 25 de maio de 2008

Sinceramente

Sinceramente? Eu não me importaria se me dissessem que há um satélite filmando meu quintal. Não, não. Convivemos com mais serviços secretos que oficiais, concorda? Sou muito superior a isso. Podem vir mil agentes do FBI, a única coisa que eles encontrarão na minha propriedade são as orquídeas mais bonitas da região. Muito melhores aliás que as semi mortas dos vizinhos de frente. E ainda se gabavam: “Trato elas todos os dias. Até converso com as flores!”. Como se planta escutasse. Provavelmente se escutasse, acharia tão estúpido quanto eu achei.
Então você me pergunta: e se colocassem uma câmera na sua cozinha?
Bem, querido curioso, eu acharia uma delícia. Você também acharia. Nós dois poderíamos nos maravilhar com os pães italianos, queijos franceses e chocolates belgas. Eu com o paladar e você com a visão. Não daqueles em promoção no mercado! Daqueles importados. Especialmente para mim.
Agora, e quanto ao quarto? Ótimo questionamento. Já dizia minha boa avó, se quer conhecer uma pessoa esqueça a mente, vá ao armário. E no meu você vai encontrar os produtos mais atuais em quesito de máscaras faciais, perfumes. Roupas que mantém a coluna erguida. Lentes de contato.
Sinceramente? Se tivessem colocado câmeras comuns na minha casa, eu não teria me importado. Sou muito maior que isso. Mas não foi o que fizeram. O que fizeram foi instalar um aparelho pior. Desconhecido e desconcertante.
No meio da noite fui acordada por aquela besta mecânica. Desrespeitando minhas oito sagradas horas de sono e todas as onze de trabalho que viriam a seguir, ela me assustou com seu frenético processar de dados adquiridos. Então, me embebedou de horror com as imagens armazenadas e fez com que eu caísse com os braços em formato de cruz sobre a cama.
“Pois é”, disse a voz triste da máquina, enquanto eu ainda pensava em como faria para me levantar. “Então quer dizer que você envenenou as orquídeas dos próprios vizinhos”.
“E a questão não foi nem inveja... Você mal se importava com o próprio jardim. Tudo, e veja bem que patético, foi o ciúme da relação de uma pessoa com uma planta. Você não vale nem isso para uma amizade. Você é pior que uma planta. Uma planta. Que vida. Que vida, hem?”
“E sua comida? Você manda vir diretamente para casa. Ainda é o medo de freqüentar lugares públicos? Pudera. Você sabe melhor que ninguém que o medo não é se misturar com os outros, mas que os outros não queiram se misturar com você. Bonito, tão bonito.”
Achei e apertei o objeto na tentativa de quebrá-lo. No entanto, quanto mais o apertava, mais ele falava. Quanto mais o atingia, mais dor eu sentia.
Finalmente adormeci, exausta.
O som tic-e-tac de um objeto que nem sempre se parecera um relógio me enlaçou, mas nenhuma das duas mãos ousou, qualquer dia a seguir deste, sair de cima do pulsante e reprimido peito esquerdo.

sábado, 24 de maio de 2008

Uma Historia de Passarinho

Foi amor a terceira vista. Estava admirando aquela criatura que eu criara meio sem querer num dia de total falta de inspiração. Parecia com qualquer ave, nenhuma em especifico para falar a verdade. Eu já sabia que conforme eu criasse a criaturinha ela se tornaria o que eu bem entendesse, pensando nisso fui criando-a. Deixei-a sobre a minha escrivaninha ciscando e de vez em quando eu dava um pouco de atenção a pobre criatura. Aos poucos foi crescendo, é claro, e se parecia cada vez mais com um gavião, estava felicíssimo pela minha avezinha. Mas um dia chegando em casa vi que meu futuro gavião havia se tornado uma porcaria de uma galinha! A ave que tanto dei amor e carinho, agora era uma galinha? Continuei tentando, não desistiria de meu imponente gavião, depenei suas penas esperando que crescessem de gavião, aparei teu bico, mas de nada adiantava, nem pavão haveria de se tornar. Galinha não se torna gavião.
Um dia cheguei em casa e vendo aquela maldita galinha ciscando meu caderno e só parecendo cada vez mais com o que ela já se mostrara, me trouxe uma fúria súbita, agarrei o pescoço da ave e apertei até a pobre perder todas as penas, depois juntei todos os restos e joguei no lixo.
Mas não é que aquela ave viria me atormentar de novo! Um dia quando estava sem fazer nada em casa eu vi que como uma fênix de papel a ave voltara, dessa vez sob uma forma de gavião! E que gavião! Penas negras, garras afiadas, olhos aguçados! Apenas um pequeno detalhe: na ultima estrofe, lá no último verso, eu vi que sua perna estava quebrada. Que pena eu tive da pobre ave, tão bela, tão imponente, mas não pode existir uma ave de caça que por culpa da pata quebrada dependa do dono, um gavião tem de viver sozinho e este morreria com a tal da pata quebrada. Tentei consertar a pata, mas gavião não foi feito para ter auxilio do dono. Coitado, tive de matá-lo.
Passei um bom tempo chorando por meu belíssimo gavião, mas quando eu menos esperava ele reapareceu e queimando se transformou em um passarinho de estimação, um pequenino periquito.Não era grande coisa, pequenino, não muito bonito, poucas penas, bico curto, olhos pequenos...mas acabei criando por ele um certo carinho. Não tive dúvida, comprei uma folha de papel e botei o periquito nela.

espinhos

Beleza;
da mais pura e artificial, da mais bela e superficial.
Onde moram as mentes mais insanas e perigosas, onde moram as gordas poupanças de dinheiro. Me deparo com rostinhos bonitos, que não tem nada, além de uma bela aparência rosada com as pétalas de dinheiro que sai dos bolsos de seus pais. Estas belezas expressam o pior tipo de espinho de uma rosa negra, que chama atenção, que exala beleza por cada espinho, que atinge aos poucos todos os amores e sentimentos de seus amados, de seus amantes.
A rosa negra exala beleza por seu jeito único de ser, por serem mentes fracas, porém amadas. Elas conseguem o que querem, elas têm o que querem, nunca tiveram dificuldades, não iriam entender o próximo, se nem entendem a elas mesmas. É difícil entender aquele "vô chato" da esquina que pede para elas pararem com a musica alta. Há um ar de sofrer de pura indignação! Onde já se viu? É a banda do momento! Onde já se viu? Agora é proibido música alta?
Provocá-las não pode, elas são intocáveis, usam máscaras de ferro, escondem os sentimentos, menosprezam os outros. De tato esconder, já perderam os sentimentos,a moral, a razão. O que ganharam? Entendimento delas mesmas?
Quando menos tentam entender quem são, mais superficiais ficarão, ignorando aquele pobre senhor, que um dia teve felicidade, que um dia viveu, que hoje pede dinheiro na praça, para um trocado para um pão.Em troca, recebe espinhos, ignoram os fatos que as circundam, acreditando na sua própria existência, somente nela. Ou ignorando aquela pessoa que não tem as mesmas atitudes que ela e nem anda conforme elas esperavam.Essa pessoa está errada,ela não vive, ela não sente! (essa pessoa provavelmente tem uma moral estabelecida ainda, no mínimo).
Sua rotina tediante as torna viva na hora de armar um escândalo para cada catástrofe que passam, como quebrar uma unha, ou, não receberam o presente que um dia as comprariam. Freqüentar o melhor salão da cidade é o mínimo o dever dela, passar tardes e tardes em tal lugar perdendo tempo, ganhando ferro...

...
O que se tornarão?
O que eu me tornei?
Bem, o que estas pessoas se tornarão, só elas sabem, mas com certeza, eu me tornei um ser hipócrita, ou uma vó chata, que um dia se arrependerá de cada palavra dita, de cada emoção sofrida um dia pela imagem que a rosa negra passa pelos seus espinhos.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Conversa

Hoje minha loucura parece doença. A anormalidade usual está dentro dos padrões. Somos todos um pouco loucos, cada um prum lado diferente. Mas hoje a loucura puxou todas as minhas vertentes.
Entende... Sei que entende.
Mas você entende isso, querido? Entende que a loucura explicada já não é mais loucura, mas é charme de gente culta? Entende que isso está me deixando morta de raiva, porque todos dizem que fico efusiva demais em dias assim?
Ah, mas tem sangue correndo nas minhas veias, passeando através de cabinhos pelo cérebro! E isso, não é efusivo? A vida por si só não é efusiva?
Qual diabo a morte. O assunto do descanso já me cansou tanto que perdeu o sentido.
Eu amo escrever sobre isso, sabia? Sempre elogiam tanto. Eles amam. Eles amam a insanidade quando não é física e está bem quietinha no papel. Caso contrário, ah, mas que efusiva! São loucos, eles. Isso sim.
Esses Kafkas, esses Poes. Estão todos na segunda leva do romantismo. Mas ficavam loucos da vida quando dizíamos isso. Porque não queriam que lhes déssemos nome, isso não. Ficavam tão bravos que nome parecia ser a única coisa que importava.
Como você sabe?, ele perguntou.
Ah, ah. Era assim com música, os músicos, e de música meu amigo entende (já posso assegurar que eu não entendo de nada).
E por que tem que ser assim com literatura?
Quantas perguntas, quantas perguntas.
Essencial, caro. Porque a música e a literatura estão ligadas por um ponto crucialíssimo: o ser humano.
Você entende? Me entende?
“Claro que entendo. Já passei por isso.”.
Somos tão charmosos, querido. Só falta um retrato em preto e branco e um cigarro. Clarice, Clarice. Uma idiota. Mas era tão charmosa.
Falar de charme te lembra algo erótico demais? Qual! Estamos no auge da sexualidade na escrita. Falar “sexo” ficou tão charmoso. Acho bonito, acho bonito. Só pensamos em sexo mesmo. A literatura não podia estar mais certa.
Não fique bravo, não quero que pense mal de mim. Sei que na sua imagem eu sou tão boa nesse sentido. Recatada até. Gosto muito da imagem que você tem de mim. Gosto tanto que ao colocá-la no álbum, junto às imagens que outras pessoas têm, reservarei uma página só para ela.
Mas querido, se lembre: eu sou tão ruim quanto você é. Porque somos seres humanos. E só nós dois sabemos o quão mal pode ser isso.


Rosana


obs: Oba. Primeiro heterônimo. Mais conhecido como heterônimo das extremidades.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Um certo melhor amigo

Ele me perguntou se eu me lembrava, outro dia.
E é claro que foi a pergunta mais tola que ele já me fez: como poderia não me lembrar? Ainda que minha memória se esvaísse da noite pro dia, de modo que eu não soubesse nem mesmo qual era meu nome, reconheceria naquele rapaz o meu Quim. É simplesmente mais do que alguns fatos. Meus sentimentos se confundem com as lembranças que eu tenho, e mesmo que elas fossem embora, os sentimentos ficariam, eu sei.
Mas me lembro de cada segundo de nossas vidas. Uma coisa tão boba e sem sentido. E ainda assim, uma coisa que eu amo.
É incrível como somente bobagens assim conseguem atingir o nível do sublime, ainda que pareçam, ainda que sejam medíocres. Afinal, são coisas que amo.
Penso nos nossos tempos de criança e miro aquilo que nos tornamos. Estamos juntos há tanto tempo! E por mais que eu queira sair, me libertar, conhecer o mundo e viajar, sei que poderei sempre voltar. E quando o fizer, será pra ele, pois estamos tão unidos que me sinto como se fosse ele o meu lar.
É toda a minha certeza nesse mundo: um garoto magrelo e desengonçado como todo magrelo deve ser, um menino-homem, um amigo amor que eu chamo de Quim, de Quin-dim, o meu querido Joaquim.

(Cata)

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Linhas tortas

Um dia destes, Deus parou e disse:
"Vou escrever com a mão esquerda hoje"
Só que Deus era destro, e só sabia escrever direito, com todos os circunflexos e agudos no lugar devido, com tudo perfeitamente arranjado.
Neste dia, criaram aquela expressão "Deus escreve certo por linhas tortas".
E assim nasceu o ser humano.

O país sem face

"Perdemos nossa língua" estava escrito em uma notícia de canto do meu jornal hoje. Só no meu jornal porque para os outros estava escrito que os lusíadas finalmente tinham decidido se curvar aos tupiniquins, depois de muita guerra, em que nós mostramos todo nosso poderio político e econômico. Os lusitanos lutaram bravamente mas nossos gigantes com arcos e flechas de Real forte resolveram o assunto.
No meu jornal estava escrito que finalmente o ouro passou por cima da lingua, que nós estamos tão perdidos que nem vimos isso. Disse que até mesmo os portugueses, tão defensores desta língua tão bela, tão diferente em cada canto, desistiram quando viram os navios de novo abarrotados de açucar e café.
Guimarães, Machado e Vínicius que sejam lembrados, porque agora, não virá mais nada.
Descendencia que não nos orgulhamos, lingua que temos vergonha, matamos os índios, afogamos yemanjá, unificamos o portugues, aprendemos ingles, quebramos nossas violas, compramos novas guitarras, destruimos o verdadeiro carnaval, desinventamos o samba. A troco de quê? Me pergunto: A troco de quê?

sábado, 17 de maio de 2008

O Caderno

Era um homem comum: tinha amigos, respirava, comia, tinha sonhos, desilusões...E tinha um caderno.
Desenhos sem sentido, rabiscos, uma palavra perdida, uma frase encontrada, uma mancha de caneta, um poema, uma folha em branco, uma folha rasgada. Um sonho, um pensamento, seus olhos, sua dor, seus medos, suas alegrias, seus sonhos...
O caderno era sua vida atrasada. Ou a vida seria o caderno atrasado?
As páginas novas do caderno apagavam as páginas velhas, que perdiam o sentido. Mas um caderno não se apaga, pode-se arrancar uma folha ou tentar apagar um pedaço ou outro, mas ainda fica as marcas que sobraram, uma folha arrancada é uma folha faltante. Um caderno segue até a última página, aí ele acaba.
O homem olhou para o caderno. A vida é assim? Ela acabará quando não tiver mais páginas para escrevê-la? Estou no meio de uma história que o propósito é chegar a um fim? Não posso fugir daquilo que já foi(ou será) escrito? Jogou o caderno na lareira, quem manda na minha vida sou eu.

Saúde

Açucar? Diabetes
Sal? Hipertensão
Carne? Ataque Cardíaco
Frutas? Diabetes(de novo)
Cerveja? Cirrose
Cigarro? Cancer
Café? Cancer
Doces? Cáries

Se for pra viver sem nada disso prefiro que me dêem um tiro de uma vez.
melhor viver pouco com uma vida doce e salgada do que viver muito à pão e água.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Contradição

Quero assistir uma comédia romântica bem clichê. Quero comer uma fritura bem saturada. Quero ver todas as pupilas dilatadas. E que o mundo saiba: se apenas com objetos intelectuais aprendemos, é com as besteira fruta-cor que vivemos.
Coloco um chapéu na cabeça e um charuto na boca. Ei, querido, a noite é uma criança já faz duzentos anos. Então cale a boca e encare a contradição. Poesia que é poesia não se faz com lápis na mão.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Questão de vida ou morte

O tempo não é o problema. A questão é a contagem regressiva. Os minutos que se acumulam sobre as costas, a paciência que suga a cor do cabelo, a estabilidade que rouba a rigidez da pele. A questão é que agora está tudo muito bem e daqui a pouco eu estarei em frente à mesa do diretor da escola, depois atrás dela, até que quatro portas me comportem e uma música triste, triste do choro alheio sobreponha Mozart. Veja bem, a morte não é o problema. A questão é o nascimento e a montanha-russa. Eu gosto de ar no rosto, gosto. Gosto de caminhar descalça. Gosto de ler contra o sono. Gosto de comer chocolate quando está frio. A sensação de estar dentro do ringue sem barras ao redor onde me apoiar. Veja bem, o problema não é a morte, é a vida. Quais serão as conversas, sem mim? Os chocolates, sem mim? O chão, sem mim? Como será o mundo, sem mim? E se sou gostos, retina, saliva, endorfina, o que diabo serei eu sem o mundo?

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Desequilíbrios da idade

Perdeu as estribeiras em qualquer lugar depois dos quinze anos. Pintou o cabelo de loiro, duas mãos de vermelho em tinta enfeitaram as paredes da sala. Escolheu dois tipos de pratos para guardar no armário, os mais bonitos. Colocou os brancos sobre a mesa. Não tinha mais cor preferida. Esqueceu seu número da sorte na gaveta de sapatos. Estava pensando em colocar pratos vermelhos no armário e pintar as paredes de branco. Seria e não faria diferença. Faltavam dois meses para o novo ano e a aveia estava terminando.


Tudo teria ido tão bem se naquele outubro, há dez anos, ela não tivesse zerado a prova de física.

Ocupar um espaço físico na sala de aula

Impressionante. Fico imaginando minha mão, meu tronco, meu rosto causando uma pressão invisível para os lados e esmangando outras mãos, outros troncos, outros rostos. Eles nem imaginam. Outros setenta globos oculares pressionando os meus olhos. Tudo fica embaçado, impreciso, relativo. É essa pressão inivisível que faz o ar ser tanto em tão pouco espaço. As pessoas são muitas no mesmo espaço. O que fazer então? Minha mão, meu tronco e meu rosto não têm culpa se a cada vez que eu inspiro meu peito expande um pouquinho mais.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Desequilíbrio

O homem de pedra que morava na minha memória e possuía o rosto no meu rosto me disse com um hálito de oxigênio que se não fossemos um mistério seríamos previsíveis demais. E eu disse que não tinha entendido nada. Ele me respondeu que só nesse caso eu teria entendido tudo. Acho que era louco, principalmente agora que estava compulsivamente me dando de beber com um álcool salgado que saltava dos meus olhos. Eu lhe disse que era alérgico a sentir, ele me disse que eu era a úlcera do mundo. Falei que úlcera lembrava âmago e que âmago era a palavra mais bonita que eu já tinha ouvido. Ele disse que eu não poderia me tornar filósofa se tivesse nascido uma. Perguntei o por quê.
Meu deus, o que é isso que está sugando a cor de todas as bocas, essa sensação que sobe pela garganta? Eles não me disseram isso nas revistas, nem nos seriados de TV. Não me alertaram no programa de saúde, nem existe uma cláusula contra isso na nossa constituição. Não somos uma federação, eu sei o que é uma, mas isso não arranca essa sensação horrível que quem está determinando o ritmo com que o meu peito sobe e desce não sou eu. E nós não somos uma federação. Será que esse formigamento pode ser meu sangue? Que, cansado da ausência resolveu latejar o excesso? Será que é possível que ocorra uma transfusão de almas? O médico disse que podia ser diabete, quem sabe eu poderia morrer, se fosse um tumor. E ainda assim não somos uma federação? Eu sou louca e sou poeta? Poetiza, ele disse. Poeta, respondi.

Escuridão

A negra beleza
Escondida nas sombras
Minha vida cria lágrimas
Cria cor o sofrer de cada decepção
Tudo em um grande bosque esquecido
Escondido nas sombras.

Há muito a mostrar.
Páginas de amargura!
Tentando esconder um final feliz.

Há muito a mostrar,
O medo não se esconde comigo.
As sombras mostram quem sou.

Eu sou a sombra, a solidão escondida,
Vivendo o pesadelo

Há muito a mostrar
Tudo em um bosque escondido
No medo, no amor;
Na escuridão.

(Beatriz)

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Falsa Cidade

Não agüento mais a falsidade dessa cidade que eu vivo
me perco em meio de tanto teatro, de tanto retrato.

Quero aquele lugar aonde a gente morava, lembra?
o sol era quente, a manhã era fria, a noite tinha estrelas
quero uma cidade de verdade, onde as pessoas existam

mas agora não posso mais voltar, minha cidade está morta
que graça tem para mim conhecer as pessoas na rua?
Ver os animais brincarem no nosso caminho, os sonhos na lua?

eu já virei falso, meu lugar é aqui no meio dessa loucura
andar nessas ruas escuras, nos coletivos lotados, nos trens apertados
de preferência sem sentir a pessoa que está sentada ao meu lado
aonde ninguém se conhece, ninguém se ama, ninguém se odeia
e tudo anda, como? não sei, tudo é rápido, tão rápido e sem sentido

Essa cidade para mim é vida, afinal virei só mais um morto vivo,
Amarei o andar sozinho nas ruas em meio a tanta selvageria
E nesse momento perceberei que aquilo que chamo de falsidade
Na verdade sempre teria sido a mais verdadeira realidade

nada

Andava sozinha nas ruas da minha cidade. Uma cidade pequena, de coração grande, abrigava as melhores almas. E daí? Eu estava sozinha. Sem amigos, sem família, estava perdida.

O sol me acolheu nos jardins solitários, a sombra cobria o cemitério, guardava almas mortas, que um dia esperam pela vinda de seus amados, que ainda assombravam as terras que hoje não mais lhe pertencem.

Sentei sozinha. No parque, no cemitério, sentei esperando... esperando...

Esperando o que?

Esperando a vida, a morte, uma alma do cemitério, alguém para alegrar meu dia? Não sei, somente esperando.

De repente, o banco ganhou cor. Eu não estava solitária. Nem acompanhada. O banco ganhou cor! A sombra do cemitério me acolheu, as flores podres guardando túmulos vazios de amor, ganharam vida. Um passe de mágica!

Ah, é verdade, mágica, sonhos, alegria. Isso não existe. Pelo menos pra mim...

Solitária fiquei de novo, mas o banco e as flores, ainda tinham vida.

E agora?

Ah, que se dane!

Continuei andando, solitária não mais fiquei. Sim, é assim que tudo pareceu mais belo naquela cidade...

domingo, 4 de maio de 2008

A Estante

Passo meus olhos pela organização colorida e empoeirada de velhas histórias. Já fui cavaleiro, detetive, caçador, soldado, médico, taxista e cobrador. Vivi em velhos prédios de apartamento, em construções abandonadas, subúrbios, mansões, morros cenográficos, minúsculos sítios e em enormes fazenda. Estive em histórias cotidianas e em aventuras irreais. Tudo no calor lúdico de minha infância.
Nas contra capas relembro das pessoas que indiretamente me deram tão bons momentos. Pequenos resumos de meus irmãos, dedicatórias de pessoas que não conheço, palavras de amigos há muito esquecidos e velhas frases destinadas a mim.
Ela pode parecer morta, mas em suas veias corre a mais pura vida: crônicas, contos, romances, poesias e fábulas se preparam para a próxima leitura, talvez com novo leitor, nova estante. Seus antigos donos e seus doadores jazem junto com suas histórias no fundo do meu coração, formando hoje quem sou: a estante.

Frio, demônios e traição

O frio libertou meus demônios
Libertou meus demônios, o frio
O frio libertou meus demônios
O frio, por que me traiu?

Meus demônios, o frio libertou
Meus demônios frios, o libertou
Meus demônios, o frio libertou
O frio, quem me traiu?

O frio, demônios, quem libertou?
Quem demônios, libertou o frio?
O frio, quem me traiu?
Por me traiu, frio.