segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

a vela

Já havia tempos que não bebia mais nada, o porre já se dissipava.
Arrastei-me como um velho fugitivo. Mas aquilo de que eu fugia era minha própria fuga, aquela que cedo me parecia o sangue de deus.
Entrei quase destruindo a porta, da casa que por fora já mostrava abandono extremo e podridão. Dentro era pior.
Era tudo tão escuro.
Procurava no interior um conforto, mas o álcool me impedia da lucidez necessária para se chegar a um objetivo.
Na escuridão brilhava fraca uma vela em um candelabro torto, andei cautelosamente em direção ao seu calor...
Enquanto me aproximava percebia algo se materializando nas sombras.
Um rosto.
Olhos enormes, com olheiras maiores, uma boca lotada de dentes e escárnio, a palidez de quem não ama e as feições de quem sabe apenas temer e odiar. Odiei aquilo que via, fedia a invalidez e morte.
Enlouqueci. Urrei. Corri. Abati minha preza.
Tudo se desmaterializou, e as pedras brilhantes choveram sobre meu pé.
O que vi era a minha imagem, meu reflexo...
Lá eu jazia, no chão, quebrado como um quebra-cabeça incompleto e sujo de sangue, do meu sangue.
Tentei encaixar as peças da minha existência, mas a vela já havia apagado, não haveria mais luz, nem esperança. Eu havia perdido a mim mesmo.