segunda-feira, 30 de junho de 2008

A vida acontece na calçada

E pela primeira vez David parava o trânsito. Mão estirada, o som de um breque. Todos atravessaram a rua sem problema apesar dos gritos de ofensa do motorista.

David era um perfeccionista, acreditava piamente na utopia e lutava, sem cansaço e sem medir perdas, pelo que acreditava. “Porque se a gente esquecer a utopia... que vida chata, né?” dizia freqüentemente. Politicamente: nem de esquerda, nem direita. Muito menos em cima do muro! Negava os rótulos, embora não olhasse com maus olhos o de anarquista (não que ele admitisse isso).

Pela criação que teve adquirira um gosto absurdo pela natureza e fazia o impossível para conservá-la. Entrava em debates e discussões a respeito da chamada crise ambiental em que invariavelmente ficava isolado em sua opinião. Era a favor da rediscussão da sociedade como um todo e não só do modelo de extração energética. “Sim ao ônibus e não ao carro flex!” dizia essa frase panfletária freqüentemente. E esse pensamento o levou a comprar a briga que lhe custaria mais caro.

A luta do homem contra o carro. Animal contra máquina. Pele contra metal. Parou de usar carro particular de todo. Crise familiar, briga com os pais que não queriam seu filhinho andando por aí. “Não importa! Ou transporte público ou nada!” gritou David, o teimoso. Decisão tomada, decisão realizada. O tempo deve ser pensado de outro jeito, as horas de ônibus se juntariam horas de caminhada.

Tempo é o menor de seus problemas. Dias de chuva, jatos de água por parte de seus amigos motoristas. Dias normais, uma eternidade para alguma máquina parar na faixa pela gentileza ínfima de seu escravo condutor. E a caminhada onde não passam ônibus é claro.

O que realmente o incomodava era o desrespeito da máquina. David, o teimoso, resolveu forçar o respeito... Parava no meio da rua, sua mão estirada, parava o trânsito e por um efêmero instante o homem era dono da cidade. Imensa a coragem do garoto para desafiar sociedade tão bem acomodada. Foi assim que começou.

Isso virou rotina. Mão estirada, David sentia seu poder aplicado para a comunidade humana em detrimento da comunidade automotiva. Orgulho, estava lutando pelo que acreditava. Força, todo dia era uma batalha da grande guerra que ele venceu.

David, o teimoso, seus atos se espalharam, não é mais o único a desafiar a máquina. Os humanos voltam a ser realmente os donos da cidade. David sorri, está feliz. Fez o que queria fazer, ganho para a maioria.

A guerra foi vencida, mas David perdeu uma batalha.

E pela última vez parava o trânsito. Corpo estirado, o som de um baque. Ninguém atravessou a rua e todos acompanharam os gritos do motorista desesperado.

David não veria o impacto de suas vitórias. A máquina só foi apreendida. O motorista só mudou de gaiola.

“Mas não importa! O que vale é lutar pelo seu ideal, sem medir esforços e sem baixar a cabeça!” diz David, o teimoso, freqüentemente.

3 comentários:

Beatriz disse...

David, o teimoso
perfeccionista, gente do povo. nem lá nem cá, até a hora que resistir.
seria ele um pedaço de cada cidadão? (se eu interpretei bem)
mas aquele pseudocidadão, luta por ideais, mas nunca passou fome, tem dinheiro para o seu própria carro, mas prefere o transporte público (nao sei se é o caso dele, mas eu ouvi do meu professor de geografia que na Europa não se usa tranporte particular para andar na city)..
ainda bem que existem esses Davids, é o que buscamos, senão a teimosia!
good job: )

nada disse...

Adorei este texto...Não costumo comentar muito, por falta de criatividade, por falta de tempo, por falta de coragem, mas desta vez mereceu, gostei muito mesmo...

Juliana disse...

pobre pessoa...