Cheguei em casa. Estava vazia, ambas, eu e a casa. Fui para meu quarto, olhei pela janela, vi a morte, mais comumente chamada de vida. Lembrei-me do ônibus, as pessoas em minha volta, muitas pessoas em minha volta, ilustres desconhecidos... é a minha cidade 15 milhões de pessoas, 15 milhões de anônimos desimportantes, o onipresente anonimato da cidade grande.
Sentei. Que tenho que fazer? Matemática, física, geografia e português... Melhor dizendo geologia e gramática... Ahh, as desumanidades, que tristeza. Tiro um caderno da mala aleatoriamente, física. Letras em igualdade, a lógica numérica das variáveis. Eu não entendo nada, tenho até dezembro pra entender e tenho que saber só até a data do vestibular. Depois? A vida inteira pra esquecer, só mais uma pedra de conhecimento indigesto. Desisto, tenho mil dúvidas para cada problema e mais várias delas para o resto das coisas.
Arranco uma folha puxo um lápis e me ponho a desenhar. O que? A imagem do futuro... Com a bota não encontro problemas, ela é simples, dura e forte, sem detalhes, é um bloco monolítico e sem subjetividade. O problema é a face humana... De quem seria ela? Ela está sentindo dor? Gritando contra a bota? Tenta se esquivar de alguma forma? Ou está quieta, suportando, submissa? Agradecendo? Quando a situação se estatizar será o fim da história, sem dialética, sem humanos, só máquinas... O fim da contradição, o perfeito duplipensar, melhor seria chamá-lo de nulipensar. Seremos gado. Somos gado! Já escrevia Nietzsche sobre a vaca colorida... Nietzsche... Como soa bonito, citar um filósofo alemão parece tão inteligente. Mas e o Brasil? Cadê minha cultura? Cultura global? Multinacional? Indústria global!
Perdida em meus devaneios desisto do desenho. Vou beber água, paro, ligo a TV. Oh lindo mundo plástico! Pena que sou carne, a dura responsabilidade de escolher, pensar, viver... Porque não sou como as pessoas do lado de lá da tela? Porque não estou absurdamente feliz? Será que estou doente? Ligo para a psicóloga. É só tomar mais umas daquelas pílulas? Tem certeza? Obrigada! Tomo a pílula, volto para a TV. AH! Esses pensamentos que não me deixam! Desisto. Desligo.
Vou ao computador, ligo o Orkut. Desligo-me.
Bianca
2 comentários:
Amor Bastante
"[...]um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto"
Leminsk
E citar autor brasileiro? Serve?
O aprendizado não apreendido. Faz parte. Mas reparte.
Maldito Leminsk. Inspira até o meu corpo.
inteligente.
curti a ironia. eu gostei dos seus textos. tem bastante opiniao.
mas têm algo de melancolia.
eu vou ler mais um pra ter certeza.
a gente se encontra por aí.
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