Os olhos estavam pregados as olheiras negras que passavam por noites mal dormidas e por manhãs mal acordadas, dentro do passado e do presente que às vezes sobressaltavam sobre o mundo quando abria os olhos, mostrando duas velas quase apagadas, como se fosse o ultimo dos sétimos dias. Via assim o pássaro e o avião passando pelo vermelho sangue do céu azul.
Nos braços desnudos carregava histórias escritas sobre a pele, debaixo das mangas rasgadas do espectro que já foi uma vida. Ainda é a vida, tenta se convencer colocando um casaco sobre as feridas já saradas a tanto tempo, mas que insistem em aparecer para ele.
Volta as mãos sobre a pilha de objetos que se avolumam a sua frente, escolhe alguns, passa a mão, sente o objeto para si e deposita dentro do saco que carrega nas costas. Coloca a mão sobre outro objeto, sente com as mãos, depois com os olhos, com o nariz e com a alma, que subsistia sobre o crucifixo de prata que apanhara tempos atrás. O mais difícil é escolher algo que não lhe interesse.
Depois desse lento processo de vasculhar, ver, tocar, sentir, engolir, amembrar a seu corpo, começa um caminhar penoso com o fardo nas costas. Subindo morros, descendo, entrando em vielas, bueiros, bocas de lobo, avenidas, túneis, viadutos, passando e vindo por onde as pessoas não andam, procurando pelo esquecido e pelo não querido.
Encontra em seu caminho chupetas, abraços, o primeiro brinquedo, os primeiros sonhos, de creme e de chocolate, o primeiro algodão que era nuvem em um palitinho, as primeiras fotos, engatinhadas, roupas, beijos, palavras, cachorro, caminhadas, linhas, cadernos, bicicletas, dias de aula, sessões de cinema, beijo, cartas, fotos, adeus, abraços, viagens, namoradas, faculdades, trabalho, aliança, casa, fotos, abraços, adeuses.
Vai pegando tudo que encontra e guardando no saco e vai carregando este fardo pelas ruas cada vez mais escuras e mais vazias. Suava, tossia, era o peso do esquecido que lhe pesava, o peso do não querido. Morria, levantava, continuava.
Já não se preocupa com as faixas de tráfego e anda pelo meio da rua entre buzinadas e freadas, rindo, era um tango entre ele e a vida, mas continua sua jornada, vai aumentando seu fardo aos poucos e vai suando, tossindo e rindo. Os carros como insetos desviavam dele, como se algo os impedisse de atropelá-lo. Assim vai passando e engolindo a cidade aos poucos, porém a cidade lhe responde a súplica de afogado.
Encontraram depois apenas uma sacola e dentro dela, uma criança viva.
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