quarta-feira, 25 de março de 2009

A Máquina

A máquina invadiu a vila. O uniforme, a sujeira do tempo e a língua estranha eram o que tornavam um inimigo e não vários. As armas tinham o terrível poder de poder apagar a vida nos homens. Era o absurdo invadindo a pequena vila alemã; um aglomerado de verde e aço tomavam passagem pelo real: as pequenas ruas, as casas, as lojas, as crianças. Destruía provando que a realidade pode ser destruída, assim como o passado, pois ambos só se mantém através dos tijolos, estátuas e livros.
Nenhum homem na máquina era um homem, mas apenas parte do conjunto exército, inimigo. A máquina que desmonta o mundo periodicamente para lembrar aos homens de sua fraqueza.
Nos olhos de um garoto a imagem passava; o fogo, o aço e o inimigo. Essa não era sua história, mas a história de tantos. O tempo passa, mas a imagem continuou; sua vida amassada sob o peso do inimigo. Um estandarte. Sua vida era a lembrança do momento em que a máquina o invadiu, pois se refletia na reles sopa que era sua refeição, na mendigação nas ruas, na cara negra de enxofre e em todos os momentos.
Só lhe desapareceram as lembranças da antiga vida, morta quando ele deixou de lado sua história e sua vida, suas derrotas. O importante era sobreviver, para manter vivo o sangue derramado e o fogo que o queimara.
Até que uma mão lhe foi estendida; uma bela mulher que o trouxe à superfície, lhe mostrando o mais belo do mundo, em troca ela só quis a sua vida, entregue de bom grado. Ele tinha de lutar contra o inimigo, aquele mesmo que destroçara sua vida, para extinguir do mundo o mal que o mata; os homens, a máquina, o inimigo.
Apenas os homens e a máquina podem extinguir o homem e a máquina, então ele se tornou uma parte da engrenagem que destruiria aquilo que destrói. Ele se tornou sua pátria, de passado e futuro gloriosos, ganhou o poder da imortalidade através dos feitos, de não sofrer mais o mundo, mas o de criar o mundo.
O que o homem não viu foi que sua bandeira vermelha era tão vermelha quanto à do inimigo.

Um comentário:

vezzoni disse...

maravilhoso o texto, passa 100% da emoçao, ou da ausencia dela do menino, ou do sujeito